sábado, 28 de outubro de 2017

Diário de uma coisa que não existe, ou, Este país não é para velhos

Há dias tive uma conversa sobre a Amizade que me levou a fazer uma experiência. Sei que pode ser dolorosa, ou melhor, que me pode mostrar algumas verdades menos boas, algumas realidades, mas estou preparada para a fazer e para aceitar as suas consequências. 
Qual o objectivo deste exercício? Pensar, reflectir. 
Esclareço que não é pelo resultado que escolherei amigos, pois a voz própria do resultado é relativa, e não será catalisadora das minhas amizades e grandes considerações. É apenas uma experiência.
As amizades vivem muito nas redes sociais, que são o paradoxo que conhecemos: ora aproximam ora afastam as pessoas. Porém, tendemos – eu tendo – a pensar que há aqueles que são inafastáveis, amigos sem os quais não vivemos e eles não vivem sem nós. Estes são uma percentagem pequena dos meus quase 300 'amigos' no Facebook (FB), mas foi com todos que resolvi fazer a experiência: desactivar o meu perfil e contar as horas até que alguém dê pela minha falta.
Uso o FB várias vezes ao dia, em Portugal e no estrangeiro, sou daquelas que coloca uma imagem pela manhã quando me levanto, a dar os bons-dias, e que respondo aos bons-dias dos que fazem o mesmo, nem que seja colocando um like. A meio do dia vou à praça pública, vejo as novidades dos meus amigos, comento ou manifesto-me, conforme me parece melhor, uso o tempo em que vou no metro, para o trabalho ou a caminho de casa, a fazer o mesmo e todas as noites, não vou ao café mas é como se fosse: encontramo-nos todos e conversamos, rimos, partilhamos, etc. Há pessoas com as quais interajo diariamente, algumas várias vezes, outras nem tanto. Há pessoas com quem tenho conversas privadas enquanto estamos no FB, via Messenger, verificando-se assim uma espécie de dupla interacção simultânea.
É dia 22 de Outubro, são 22h e encerrei a conta do FB. É Domingo à noite, dia de grande actividade. Vamos ver o que acontece.

Quem são os meus 'amigos' do FB
Vou dividir as quase três centenas de 'amigos' em categorias, sem ofender alguém:
Nº do grupo

Constituição

Contactos alternativos
         1
Família, em vários graus, que inclui filho e nora, pais, irmã, cunhado, sobrinhos, tios e primos.
Telemóvel, sms, telefone fixo do trabalho, telefone fixo de casa, Messenger, WhatsApp
         2
Amigos muito, muito chegados, uns de infância, outros de grande proximidade, o que não é sinónimo de nos vermos amiúde, aliás, o FB dá-nos notícias, novidades, idas e vindas que compensam de alguma forma, e aproximam.
Telemóvel, sms, telefone fixo do trabalho, telefone fixo de casa, Messenger, WhatsApp
         3
Amigos próximos, vemo-nos de vez em quando ou saímos juntos ocasionalmente, damo-nos parabéns e desejamos Boas Festas também por telefone, sempre que o calendário avisa que há festas.
Telemóvel, sms, Messenger, WhatsApp
        4
Colegas de trabalho, cujos interesses esporadicamente passam a fronteira profissional, mas dos quais pouco sei e eles pouco sabem de mim, fora do âmbito do trabalho.
Telemóvel, telefone fixo do trabalho, Messenger, WhatsApp, outras redes sociais, como o LInkedIn.
         5
Conhecidos, aqueles que por razões várias, por exemplo serem muito amigos de amigos ou família, ou porque temos interesses comuns a nível profissional, social, cultural, etc., acolhi no meu círculo, ou eles acolheram-me a mim.
Messanger, outras redes sociais, como o LInkedIn.

Sei que em todas estas categorias há pessoas com díspar actividade no FB, bem como com distinta literacia funcional, havendo aqueles que só sabem consultar a sua página e a praça pública das suas amizades, e estou, como é óbvio, a falar das pessoas mais velhas.
Em contraponto, há também aqueles que passam o dia agarrados ao FB e distribuem likes generosamente, interagindo comigo directamente.

A Experiência
Domingo, 22 de Outubro, 22h, desactivo a conta do FB.
Neste dia falo por telefone com pessoas de família, e com uma pessoa do Grupo 2, tendo este telefonema durado cerca de uma hora (e repetiu-se toda a semana). É usual falar ao telefone e interagir no FB em simultâneo. Não há reacções.
Segunda-feira, 23 de Outubro:
Não há reacções.
Terça-feira, 24 de Outubro:
Não há reacções.
Quarta-feira, 25 de Outubro:
Não há reacções.
Quinta-feira, 26 de Outubro:
Ao fim da tarde de quinta-feira uma pessoa do Grupo 5 pergunta-me por sms se o bloqueei no FB. Digo que não, mas não dou mais explicações. Ele também não pede.
Nessa noite desactivo a conta do Instagram.
Sexta-feira, 27 de Outubro:
Logo pela manhã uma pessoa do Grupo 4 elogia a minha participação no FB dizendo “tenho visto a tua página, aquilo é que é actividade”. Sorrio e agradeço.
Sábado, 28 de Outubro:
Uma pessoa do Grupo 1 telefona-me a perguntar se está tudo bem. Acrescenta que foi alertada duas vezes antes de decidir telefonar: a primeira vez por uma pessoa do Grupo 5 que lhe enviou uma mensagem via Messenger a dizer que estranhou não ver nada publicado por mim; a segunda vez por uma pessoa do Grupo 2 que perguntava porque teria desaparecido o meu perfil. Ambas as pessoas têm o meu telemóvel e também podem contactar-me por Messenger.
Estou há cinco dias sem perfil no FB. Isto significa uma média diária de dez posts meus, e umas cinquenta interacções com outrem, o que totaliza cerca de 50 posts e 354 interacções.
Ao longo da semana recebi quatro telefonemas não previsíveis, a pedir favores. Falei com mais de 50 pessoas com quem interajo no FB, que nada comentaram.
Ninguém me telefonou ou me procurou pessoalmente de forma espontânea.
Será forçada a minha presença na tal mesa de café onde nos encontramos, as tertúlias nocturnas onde se contam piadas, onde se estabelece e se reforça (?) proximidade, tudo e mais um par de botas? Não creio, mas o que é certo é que ninguém deu pela falta do meu perfil, nem pela falta do cumprimento matinal, nem pela despedida nocturna, nem pela interactividade ao longo do dia.
Penso nos velhos que são encontrados mortos nas suas casas, sem que ninguém tenha dado por eles. Se eu, que sou tão barulhenta, passo despercebida, imaginemos os velhos que são pessoas silenciosas. Não estranho que morram sozinhos. Se ao menos tivessem Facebook…

terça-feira, 19 de julho de 2016

#pokemongo ou como voltámos a ser nómadas!

Leio que a Nintendo já vale mais que a Sony à pala do Pokémon Go. Basta jogar para se perceber porquê.
Há muito, muito tempo, quase na altura em que os animais falavam, também eu colecionava cromos que comprava em carteirinhas, trocava com amigos e ia preenchendo cadernetas. Porquê? Porque sim, à imagem de Mallory.
Até agora passei imune a todos os tipos de jogos de computador e telemóvel, excepção confirmada por uns joguitos de cartas, banais, em momentos aborrecidos.
O meu filho era jovem e pedia para fazermos corridas de carros ou partidas de futebol, exasperando-se comigo, não pela minha impaciência, mas pela minha completa inaptidão, provocando acidentes a cada instante e levando os jogadores a marcar golo na própria baliza. Vários anos mais tarde, quando todos andavam a alimentar renas, a juntar fardos de palha e a tratar de galinhas, gozei com a comunidade de amigos e conhecidos que pedia ajuda para tratar das quintas ou das propriedades e que criavam inveja nos outros com o anúncio dos níveis alcançados.
Há dias o meu filho instalou o Pokémon Go no meu telefone e transformei-me numa caderneta de cromos!
A aplicação contraria tudo o que já se disse sobre jogos na actualidade, na perspectiva da inacção física dos jogadores: voltámos a ser nómadas!
As ruas enchem-se de pessoas com telefones na mão, ou melhor, dispositivos de captura, e caminham horas a fio em demanda de mais 'cromos', parando nas pokéstops, arrecadando ovos ou pokébolas, sozinho ou em grupo, com uma vertente de socialização ao vivo e a cores que permite saber mais, partilhar dicas e formas de captura.
Todos adoramos a ideia de estender a conquista em museus, castelos, sítios arqueológicos, etc., porém, com a sombra dos últimos acontecimentos terroristas a pairar sobre nós, a 'teoria da conspiração' vem logo ao de cima, esperando que não seja possível encaminhar jogadores em massa para locais de captura que se revelem uma armadilha.
A tecnologia surpreende sempre mas a ficção tornada realidade ao alcance de tantos, não é fácil de conseguir. A realidade aumentada na mão de milhões foi uma expectativa atingida e ultrapassada.
No próximo passo replica-se o quotidiano de Caprica? Esta série, que me parece ter passado despercebida, merece ser revista com atenção, não só pelo cenário de fanatismo religioso, como pela criação de avatares que subsistem para além da morte física de quem personalizam. Rumo à imortalidade? Não sei, mas sei que capturar pokémons pode ser uma acção divertida, feita com amigos, como quem programa um piquenique.
Tentar perceber como a coisa funciona não é querer estragar o truque de magia, antes pelo contrário, é parabenizar os cérebros que tiveram agilidade de criação de uma coisa espectacular, viciante também, sem dúvida e sem concorrência, por ora.
Estamos perante uma revolução no estar e no agir de jogadores, ziliões de jogadores, que levantam o rabo dos sofás e vão fazer o que a saúde pública sugere: caminhar. Vêmo-los saírem das suas tocas e exercitarem-se sozinhos ou com companhia, nem que seja o cão com ar estafado que no Facebook nos diz que o dono, ao contrário do que fazia, já o levou a passear hoje meia dúzia de vezes, e se pergunta, mas que diabo é um Pokémon?
Não é só jogar, é ser parte do jogo, como algumas experiências com recurso a óculos de RA já permitiam, mas dentro de portas. Agora as portas abrem-se para jovens e menos jovens, num Verão  que será lembrado não pelas altas temperaturas, mas como aquele em que o Jardim Pokelógico abriu as portas e deixou os animais à solta para que os pudessemos apanhar.
Isto ajuda-nos a aguentar a espera pelo tão ansiado Inverno - nunca foi tão esperado! - da Guerra dos Tronos! Tenho para mim que não tardará que possamos também sentarmo-nos do Trono de Ferro...

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Aproximações e afastamentos

À medida que a data se aproxima vou minguando, a dor intensifica-se e o nó na garganta aumenta.
A vida é feita de aproximações e afastamentos, dos últimos tenho experiência mas nada que se compare com as aproximações. Felizmente.
Penso que pela primeira vez conheço bem as razões do afastamento e até lhe dou apoio.
Talvez por isso custe tanto. É que não pode ser de outra forma.
Os outros afastamentos estão na gaveta da estupidez humana, da falsidade, da hipocrisia, do interesse vestido de amizade, do silêncio. Mas este contradiz tudo e em menos de uma semana Barcelona será a casa deles.
Nunca imaginei ser dominada desta forma pela dor, que a ansiedade pudesse paralisar-me, que o pensamento se revoltassa desta maneira, impedindo-me de pensar noutra coisa.
Eu, que já tinha imaginado tanto a propósito de outros afastamentos, considero-os agora uma brincadeira de garotos malcriados, uma tonteria.
Eu quero que eles fiquem bem. Eu sei que eles vão ficar bem. Ainda assim, morro.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

A mota nova

Vasculhada a net na secção da segunda mão, encontrou-se coisa válida a relativos poucos quilómetros de casa, Setúbal. Já lá tinhamos ido há uns dias ver para crer, deixámos o sinal, não de trânsito mas em notas e hoje fomos buscá-la.
O meu filho apanhou-me de carro antes do almoço no centro de Lisboa, que a coisa não se prolongaria pela tarde, era missão de toca e foge. Era... mas não foi.
Parámos a meio para abastecer o carrito de combustível e o malandro negou a mexer-se dali para fora. A nosso lado, um carro da polícia cargado de resplandecentes rapazes com uniforme lá deram uma ajuda ao empurrão, mas nada.
Resolvidos a chamar o reboque, de repente, o rapaz põe-se a trabalhar, nós todos sorridentes, estrada fora tipo Kerouac, a caminho de Setúbal.
Chegados ao local ainda faltava um retoque, isto e aquilo, pois que não faz mal, vamos almoçar aqui ao lado e já voltamos. Íamos, mas não fomos, porque o carro, definitivamente se negou a trabalhar e aí sim, veio o reboque e levou-o para a barriga de uma oficina. Ficámos apeados, mais eu que ele, pois a ideia era ele levar a mota, o que veio a acontecer minutos depois. 
Bom, mas lembrei-me que o seguro devia providenciar um táxi, liguei, confirmei que assim era, dei a morada do local onde estava, tudo certo e direito e fiquei à espera.
Esperei, esperei, esperei e meia hora depois voltei a ligar informando que ainda ali estava, tendo-me sido dado o número do taxista que, contactado, me disse que estava a chegar às portagens vindo de Lisboa. De Lisboa? Bom, ok, eles lá sabem.
Chegado o táxista, abrandou do lado contrário da via e pregou-me um grito assustador, o meu nome ali a ser expelido no meio da rua, a chegar a Tróia o eco, quem sabe com ares de trovão. Sim, sou eu, vamos lá. 
Dentro da viatura misturavam-se os gritos, sendo o condutor surdo como uma pedra a lembrar o melhor de Raul Solnado, na cena que, depois de cair uma bomba, o avô surdo saia da casa de banho e pedia zangado, que não batessem com as portas.
A custo, a muito custo, continha o riso enquanto a paisagem passava a grande velocidade a caminho de Lisboa, tendo a conversa sido reduzida a zero até à entrada na capital, quando nova cena digna de registo aconteceu.
Subindo às Amoreiras, e informando o GPS vire aqui, vire acolá, o taxista deu em carregar com o dedo no aparelho, enquanto dizia: Tu devias falar e não falas porquê?
O pobre GPS devia ir todo encolhido, ele que tão diligentemente continuava a debitar matéria, perfeitamente audível para mim no banco traseiro, mas incapaz de perfurar a surdez do homem que continuava a massacrar o ecrãn com dedadas furiosas. Fiquei sem saber o que lhe dizer, tanto mais que a qualquer sonido meu ele voltava-se ligeiramente para trás e emitia um forte QUÉ? a que eu respondia, repetindo-me, nem sempre com eficácia. Resolvi não dizer nada e ele desistiu de torturar o bicho, desligando-o. 
Muito depois chegámos so destino e, aproveitando um sinal encarnado, disse-lhe que ficava ali. A resposta dele deixou-me uns décimos de segundo estupefacta e não foi pelo tom elevado: Eu pensei que a senhora me ia oferecer um cafézinho. Fingi-me de surda, atirei um boa tarde enquanto saia e bati com a porta. 
Por esta altura já a mota estava em casa, percurso bem feito e em segurança, amanhã é a minha vez!

terça-feira, 29 de março de 2016

Preciso de mimo

Quem conhece a relação que tenho com a minha irmã sabe que o afastamento dela é coisa de causar dor, profunda. No final do ano lectivo muda-se ela de armas, bagagens, filhos e marido para Barcelona.
Assim que conto a novidade seja a quem for, a reacção é unânime sobre a minha sorte em poder ir a Barcelona sempre que queira e em como - de certeza, mas de certeza absoluta - passarei a ir lá imensas vezes.
Se por um lado eu não tenho situação económica que me permita ir mais longe que ao Barreiro, quanto mais a Barcelona, por outro, ainda não ouvi ou senti uma palavra sobre a minha tristeza em distanciar-me daqueles que amo profundamente.
Estou feliz, muito feliz por eles, note-se: desde logo a família ficará junta, sem as constantes viagens do meu cunhado, agora no Brasil, depois no Vietname, a seguir nos EUA, depois na África do Sul, entre muitos outros. Desde Janeiro até hoje já viajou para onze países diferentes e o facto de ficar mais sossegado irá trazer-lhe uma tranquilidade maior; os meus sobrinhos vão poder ter oportunidades que aqui não têm, aprendem outras línguas falando-as, conhecem novas pessoas, etc.
Para todos será uma nova vida que, tenho a certeza, lhes será favorável e benéfica, individualmente e como família.
Permito-me pois ter um 'ataque' de egoísmo e pensar em mim... a minha habitual solidão cresce e solidifica-se.
Bem sei que os que me dizem que Barcelona é tão perto e que agora há viagens tão baratas, falam por bem, querendo animar-me, mas a verdade é que não costumam marcar viagens e não sabem que os preços anunciados nunca são os reais e que, na verdade, não é assim tão perto. Se fosse, muitos de nós passávamos a vida a ir lá e não vamos. Porquê, se é tão perto e tão barato? O meu próprio director já me concedeu dias extra para quando eu lá for!
É bom constatar esta sintonia, em perfeita descoordenação com a minha situação económica.
Não é bom constatar que não há uma voz que se dê a ouvir em prol da minha tristeza.
Por motivos vários a vida tem-me levado por caminhos onde não passa vivalma, mas como andava de mão dada com a minha irmã e com os meus sobrinhos, sabia que não havia o perigo de passar a estrada sozinha; agora, que me dizem adeus de longe, sinto-me minguar e antevejo tempo vazio a precisar de ser preenchido. Vejo-me a planear a viagem e a desmarcá-la, como acabou de acontecer com uma estadia Erasmus que, embora tenha bolsa, mas já foi tempo de poder suportar as despesas várias que se acumulam em qualquer deslocação.
Há dias em que acordo e afasto o pensamento do início do Verão, eu que sempre o desejei ansiosamente. Há dias em que acordo e me ponho a arranjar estratagemas de defesa para quando lhes telefonar me mostrar contente e ocupada, como se nem sequer pensasse neles. Há dias em que acordo e quero acreditar que foi só um sonho, que está tudo normal. Mas não está. 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Da suposta amizade, da minha burrice e de um farol apagado

Face à minha incapacidade financeira de acompanhar uns supostos amigos em saídas e jantares, uma suposta amiga disse-me um dia que era uma sorte eu ter muita roupa para passar a ferro, pois assim tinha com que me entreter.
Em tempos anteriores, quando o ordenado dava para comprar livros, mantive uma relação de amizade, que acreditei ser verdadeira mas se veio a verificar ser antecedida de suposta, e com diferente cavalheira da que me aconselhava a fazer a ménage.
Nunca dava um passo sem que gerisse a conta bancária para que ela me pudesse acompanhar. Conhecendo-lhe eu a situação precária, antes a afastava das lidas rotineiras e proporcionava-lhe saídas, almoços e jantares, tudo o que me parecesse desangustiá-la. Fomos de férias, passeámos nos algarves, nos alentejos, nos nortes e nos centros, cresceu a minha família com aquela presença, que vivia nos meus planos de estar, de ir ou ficar, de rir e de chorar, largava eu tudo para a atender nos mais pequenos desejos, na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza, parecendo casamento feliz.
Até que a minha situação financeira entrou em colapso. Primeiro não percebi os motivos do afastamento, que me causaram lágrimas de dor, até que alguém me chamou a atenção para o cruzamento da informação, para o conjunto, matematicamente falando.
Não era a primeira vez que alguém se afastava de mim, mas como cometi o erro de acreditar que a amizade era verdadeira, doeu-me como se me arrancassem um bocado quando conclui que dois e dois são quatro e que o nada dos noves fora, tinha motivado a minha dor.
Aos poucos e arrastando-me lá me consegui equilibrar, até porque existia um farol na minha vida, exemplo para todas as virtudes exemplificáveis, obra de arte reconhecida, pedra dura lisa ou afiada, conforme a necessidade e o desafio.
Este farol estava para os meus amigos como os filhos estão para as coisas que gostamos. Quando alguém pergunta o que mais gostamos no mundo, acho ridículo que se responda os filhos! O meu nem entra nesta contabilidade, está tão acima de tudo que não tem comparação, é outro universo, incomparável. Da mesma forma, um farol não se compara com qualquer casa, leia-se, amizade.
É altivo, ilumina sempre, é forte, vem do antes e permanece, sabe tudo, viu tudo, é determinado contra as tempestades e, como o de Alexandria, é eterno.
Pensava eu.
Podiam passar-se semanas sem que visse a luz ou ouvisse a buzina do farol, mas acabava sempre por dar sinal de vida, por entre o nevoeiro, aproximava-se em passos seguros e firmes, como quem garante segurança; não havia distância nem assunto afastadores, não havia espuma de mal-entendidos, não havia vagas que partissem o cordame que nos ligava. A mesma frase de início de conversa fazia-me sempre rir... velhice e cataratas mencionadas por alguém que eu sentia imortal.
Assim se passaram anos, como se fossem vidas. Até um dia em que o farol se apagou, deixou de me iluminar, sem perceber que quem nos leva a caminhar na escuridão perpetra um acto de crueldade.
E assim me considero vacinada contra a amizade, palavra que posso expressar por escrito ou verbalmente sozinha mas que, interiormente, será sempre adjectivada com suposta.
É claro que respeito a decisão, se não o fizesse estaria a corromper o meu próprio sentimento de amizade. Para mim o verbo mais associado à amizade é 'estar', estar presente, estar disponível, estar com alguém, lado a lado ou à distância, estar no pensamento, acima de tudo. Resta um vazio frio quando não precisam que estejamos. Alguma vez teriam precisado? Não.

História de um sofá e de uma piscina

Desde o início do Verão comecei a ir diariamente à piscina. Foi fácil viciar-me. A cada semana aumentei o tempo dentro de água, mais cinco minutos, mais cinco minutos, e actualmente nado uma hora seguida em menos de nada.
Dois fatos de banho, duas toucas, óculos - graduados! - tampões para os ouvidos, toda uma parafernália de objectos que passaram a ser de culto.
Sete da manhã, a porta é aberta por funcionários ensonados e eu entro para sair quase duas horas depois, bem disposta e pronta para qualquer stress do dia.
Quando não consigo ir de manhã, por qualquer motivo, vou ao fim do dia e estou no jacuzzi quando, às 21.30, ouço o altifalante a informar que temos trinta minutos para deixar as instalações. Duche a correr e entro em casa a cheirar a cloro, coisa com a qual a Tróia não se importa, os saltos são sempre de alegria genuína, os latidos são música.
No princípio de Dezembro apareceu-me uma alergia nas mãos que me dava ar de leprosa. Usei luvas, fui ao médico, e depois de várias pomadas descobri que era alergia a um sofá novo comprado com imenso esforço e muito poupar. Uma pessoa não pode ter nada novo...
O que mais me custou foi ter que deixar de nadar durante mais de um mês, recomendação compreensível do médico, enquanto a cortisona não fazia efeito total.
Há cerca de uma semana recomecei a natação. Regressou a boa disposição, os dias passaram a ser mais leves, tudo melhorou. Até que a alergia voltou.
Conclusão, afinal posso sentar-me no sofá mas não posso ir à piscina, pois a alergia é aos produtos da água e não ao textil.
Quando se tem azar, é assim, não se pode gostar de nada.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Departamento de Coordenação de Defesa Planetária

A NASA criou esta secção para identificar e analisar asteróides, cometas e outros corpos que passem nas redondezas da Terra e as notícias mostram uma imagem do filme Armagedon, explicando que brevemente as nossas defesas passam por procedimentos do género dos utilizados naquela película.
Não sou grande fã de asteróides mas, tal como a NASA, adoro um bom ET e vejo sempre nestas notícas qualquer coisa encapotada. Teoria da conspiração? Não, esperança!
Imagino que a procura desesperada de água pelos planetas não seja para descobrir que afinal, aqui tão perto, também houve dinossauros, que morreram não se sabe como, e australopitecos, homo sapiens e consumidores de tecnologia como nós, até porque é absolutamente improvável que a evolução noutro local fosse igual à nossa, logo, que outros seres precisem de água; a procura de água é para nós próprios, no futuro, um futuro próximo.
Porque tem a malta de fora de ser igual a nós? Porque têm os ET's de falar, por exemplo?
Em Encontros Imediatos do Terceiro Grau - que me fez vibrar - comunicavam através da música, mas depois tinham cabeça, braços e pernas como nós. Em Predador, os senhores eram invisíveis, mas tinham ar de samurais.
Temos uma imagem divina dos ET's, ou seja imaginamo-los à nossa imagem e não como por exemplo uma bola de cotão que se vai formando, aumentando, dividindo e multiplicando, ou como formas de energia invisível aos nossos olhos.
Em Homens de Negro encontramos uma panóplia de seres que parecem saídos de uma caixa de gomas e que andam por aqui misturados connosco, tal como os protagonistas de diversas séries televisivas actualmente em ecrãn.
Com raríssimas excepções, competimos com todos e eles competem connosco e aqui, neste enorme detalhe, é que gostava de ver qualquer coisa diferente.
Acredito piamente que não estamos sozinhos e continuo a esperar por um encontro com alguém muito especial. Ingenuidade? Não, esperança. 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Medidas de Excelência - Encerramento do Serviço de Urgência Básica de Coruche

A 20 de Novembro de 2015 publica-se o despacho 13.427 do Ministério da Saúde no Diário da República onde se elimina o Serviço de Urgência Básica do Centro de Saúde de Coruche. Diz O Mirante que “Na região continuam afuncionar as urgências básicas dos hospitais de Tomar e Torres Novas, queintegram o Centro Hospitalar do Médio Tejo”. 
Ai… Médio Tejo… como a Terra Média, dos Hobbits… que lindo… e a que distância ficam essas urgências?
  

Tomar
Torres Novas
Santarém
Coruche
108
85
43
Azervadinha
114
92
49
Biscainho
118
96
53
Branca
127
105
63
Couço
115
111
70
Erra
91
94
51
Fajarda
110
88
45
Lamarosa
80
82
55
Montinho dos Pegos
108
85
43
Rebocho
118
96
53
Santana do Mato
130
108
65
Santo Antonino
107
85
42


Se à primeira vista parecem um bocado longe, vejamos como é que, afinal, isto é uma medida é de excelência, pois contempla possibilidades paralelas que talvez escapem a alguns, se não vejamos:
Falamos dos alunos das escolas porque esta garotada tem a mania de se aleijar, de cair, de ficarem doentes de repente, essas coisas, e vão agradecer penhoradamente a quem se lembrou de acabar com o serviço de urgência básica de Coruche pois desde essa altura abriram-se-lhes novos horizontes: passam a ir à urgência a outros locais, como Torres Novas, Tomar ou Santarém. De que outra forma poderiam as imberbes crianças conhecer Santarém, a capital do gótico, o belíssimo Convento de Tomar ou o labirinto de galerias subterrâneas conhecidas como Grutas de Lapas, em Torres Novas? Tomar tem os seus encantos, com o rio Nabão, praça de touros e tudo, e come-se muito bem em Torres Novas, ouvi dizer. Deixa de ser necessário as escolas perderem tempo com a organização de visitas de estudo pois estas fazem-se comodamente a bordo de uma ambulância e ainda por cima, com um elemento surpresa, pois não se sabe para onde nos levam.
Com certeza que a medida de encerrar as urgências básicas em Coruche foi tomada tendo em consideração estes aspectos, ou seja, foi um dois em um. Além disso, como as crianças não vão à urgência sozinhas, também os professores, educadores, auxiliares e mais uma fila de pessoas terá a magnífica oportunidade de fazer quilómetros e quilómetros, não perdidos, mas em missão dupla de acompanhamento e conhecimento das redondezas. Os pais farão os mesmos percursos, permanecendo ausentes do seu local de trabalho muito mais tempo, gastando imenso combustível, perdendo muitas horas, aumentando os trajectos de angústia e preocupação, mas que caramba, estão a passear também, isso não conta? Em vez de faltarem ao trabalho por uma hora ou duas, uma manhã ou tarde, vá lá, como acontecia com a urgência em Coruche, vão poder faltar dias inteiros! É uma oportunidade a nível cultural sem precedentes!
É claro que a Câmara nunca mais conseguirá outro galardão como o que lhe foi agora atribuído, porque aquele detalhezinho da saúde e da facilitação das medidas de conciliação entre trabalho e família, perdem-se pelo caminho, mas isso que interessa?
Por outro lado, em Torres Novas, Tomar, Santarém, Abrantes ou Vila Franca de Xira, estes dois últimos apontados como tendo urgência médico-cirúrgica, há pouquíssimas pessoas e o objectivo é também dinamizar as urgências por lá, pois parece que estão um bocado paradas, coitaditos…  Não é nosso dever ajudar os outros? Então, cooperemos! Vamos aplaudir esta medida que proporciona ainda, quando as deslocações forem nocturnas, uma melhor apreciação da chuva de Perseidas, e aceitemos com um abraço fraternal os desafios que se nos colocam quando no distrito de Santarém as chuvas deixam as estradas submersas e intransitáveis…
Pensemos nas crianças outra vez e tomemos a seguinte reflexão: não nos queixamos que estamos tempo demais longe delas? Ora os percursos podem também ser aproveitados para se fazerem os trabalhos de casa! Há que criar sinergias!
As áreas empresariais com as Zonas Industriais do Monte da Barca, do Couço e da Lamarosa também ficam muito mais bem servidas com a urgência básica de saúde a uma boa centena de quilómetros, o que lhes dá a possibilidade de fazerem um trabalho comparado com outras zonas industriais; por outro lado, não nos podemos esquecer do Desporto, que se pretende desenvolver e consolidar junto dos coruchenses e a bem da saúde. Como esta malta também tem tendência aos aleijanços e o facto de existir um serviço de urgência era encarado como uma mais-valia na organização de eventos, agora vão pedalar para Tomar, corram em Torres Novas e organizem actividades de rio em Santarém, pois é para lá que vão em caso de necessidade, deixando Coruche mais desafogada e tranquila, pois já se sabe que isto das corridas causa stress, e é preciso é calma! Continuo a dizer, só há motivos para aplaudir esta iniciativa.

Se fosse eu a mandar ia mais longe: os coruchenses iam ao serviço de saúde a Évora, património da Humanidade, aos Açores – que bela oportunidade de andar de avião! – e a Vila Nova de Gaia, que o Porto visto dali é lindo e maravilhoso. Mas não se pode ter tudo, há que nos conter. Ainda assim, anseio por medidas mais abrangentes, como o encerramento dos cemitérios: para tanto há que perguntar às pessoas onde gostariam de ser enterradas, fazendo uma lista de preferências e na altura enterram-se por esse Portugal fora de acordo com os locais eleitos, que transbordariam de flores. Se assim for, crescem as romarias a sítios que nunca viram dois carros a cruzarem-se e faz-se jus ao nome de Portugal como um jardim à beira-mar plantado.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Nova vida

Voltei aos bancos da escola.
Estou feliz porque regresso ao que mais gosto de fazer, estudar, e consequentemente cada vez tenho menos tempo para escrever aqui.
Há dias em que penso que vou estourar com tanta leitura, tanto afazer, tanto trabalho, dividida e multiplicada em inúmeras tarefas. Mas como diz o adágio, quem corre por gosto não cansa e lá continuo, depois de um jantar não antes das onze da noite, agarrada a papéis ou ao computador, sempre com imensa pena de não ter com quem partilhar as dúvidas, existênciais ou outras, com quem discutir assuntos fora de horas nesta nova fase, nova área de estudo, novos autores, novas perspectivas, a mesma sensação de preenchimento por ter voltado a estudar de forma sistemática, empenhada.
Sou febril quando quero uma coisa e fiquei em extâse quando fui aceite; agora é empenhar-me mais ainda, não dispersar e aplicar-me.
Considerei fazer esta nota como explicação pela minha ausência e agradecimento pelas mensagens simpáticas que recebi numa caixa de correio que nem sempre vejo.
Voltarei a este espaço espaçadamente, mas não diariamente. 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sexta-feira 13

Os significados de sexta-feira 13 como sinónimo de azar e infortúnio são do domínio cristão (ocidental?), mas do conhecimento geral.
Na passada sexta-feira, 13 de Novembro, houve como que uma conjugação astral perfeita, daquelas que dificilmente se repetem: a) sexta-feira, dia de entretenimento por natureza; b) dia 13, data associada ao azar; c) Jogo de futebol, entre os dois grandes da Europa com a assistência de responsáveis máximos franceses e alemães; d) concerto rock de banda americana, que reuniria 1500 pessoas; e) tudo aconteceria no coração da Europa, Paris.
A eleição de uma sexta-feira 13 proporciona a activação eterna do medo espontâneo, irracional, imediato, a cada nova sexta-feira 13, que carregará para sempre a lembrança do acontecido, como se solidificasse o azar que se lhe associa. Usou-se uma irracionalidade cristã para dar corpo e perpetuar o medo.
A mensagem passa por esclarecer que a Europa pode abrir as portas aos sírios, mas o EI tem o controlo total, e pode agir onde bem lhe apetecer. E o ‘onde’ foi geograficamente em Paris, mas política, económica e socialmente atingiu-se o mundo inteiro. Outra vez. Ao contrário do que aconteceu no Charlie Hebdo o alvo não era dirigido em particular, era múltiplo.
A França está em guerra porque geograficamente o ataque ocorreu no seu território, mas há vítimas de diversas nacionalidades, num semear daquilo que não custa a germinar: ódio e raiva por parte da sociedade que gera ondas de solidariedade que partilham o mesmo acto, rezar, uma atitude virada para um céu cujos habitantes parecem divertir-se e cuja eficácia parece não existir.
Por outro lado, o ódio e raivas sociais, a partir de agora têm um novo rosto, o dos milhares de refugiados que assistem à Europa anfitriã (a bem ou a mal) a atacar militarmente e também os ainda imensos civis, seus familiares, residentes na Síria. O que vai falar mais alto, o alívio sobre o extermínio, ou melhor, a tentativa de extermínio de campos do EI, ou a aniquilação das suas famílias? Será esta vista como um dano colateral inevitável, sobre o qual nada havia a fazer? Quando fugiram foi um voltar de costas definitivo ou haverá ainda muitos a correr o risco de se transformarem em sal?
A França não pode olhar a meios, tem que pagar na mesma moeda, tem que correr o risco de matar civis, sem pestanejar, como represália de ter sido alvo exactamente do mesmo.
O EI consegue perfurar até à aorta da Europa e agir sanguinolentamente e o mundo ocidental, artilhado com tudo o que emana imparavelmente da tecnologia, não consegue paralisar o EI, com embaraços gigantescos como o de terem libertado Abdeslam Salah depois de o terem interrogado?
Não há uma grelha, um padrão, para, na sequência das prisões, se determinarem ligações e contactos? 48 horas depois dos ataques as autoridades mostram os aviões a levantarem, com destino a Raqqa, numa afirmação de determinação e força. As imagens oficiais são simbólicas e, natural e garantidamente planeadas, num momento da vida da humanidade onde nada se faz sem um pendor publicista, mesmo no meio do caos. É preciso que o povo veja uma acção firme, que a opinião pública veja, assista, seja testemunha da não passividade do seu governo.
Pode-se e deve-se ter receio de jogar com as mesmas armas? Que eficácia tem a aplicação dos mesmos valores da Europa, as mesmas preocupações, a quem nem as reconhece, como se falássemos línguas diferentes, não só estrangeiras, mas totalmente incompatíveis?
Os actos de terrorismo unem os ocidentais através da oração, mas fá-los olhar para todos e para cada um como um potencial terrorista. Assim, a divisão cresce à medida que a união do EI cresce também.
O ataque de hoje é feito pela França, mas quando o EI ataca fá-lo como se fosse um ataque pessoal, a cada um, face aos valores ocidentais que ligam as pessoas, como a tão francesa fraternidade.
O EI planeia profissionalmente, com calma, ponderação e em total sigilo, enquanto o ocidente partilha na internet todas as suas intenções antes de as realizar. Partilha-se também a radicalização do ocidente contra os árabes. O plano do EI está a funcionar na perfeição também na perspectiva de dividir o ocidente.
Fecham-se as fronteiras como um regresso a um certo medievalismo onde as fortalezas proliferaram, de portas fechadas e sobranceiras sobre os estrangeiros, todos os estrangeiros pois todos são suspeitos, por mais que se diga que não.
Muitos muçulmanos afirmam que o Islão não é isto. Não terá sido, mas agora é, pois é a cara visível que toca e que ofende.
A multiplicidade de dimensões onde é preciso fazer vigilância passa irremediavelmente pelo ocidente: as redes sociais são estradas sem portagens onde o radicalismo acelera a fundo. Ao longo de incontáveis anos, os elementos do EI aprenderam línguas, como o inglês e outras dos países onde se têm radicado e onde são recrutados; por seu lado, os ocidentais não falam, escrevem e nem sabem ler árabe, causando um abismo na localização dos planeamentos dos ataques, que podem estar a ser gizados ao lado de cada um de nós, que ninguém se apercebe.
Como afirma Sajian Gohel, director de segurança internacional da Fundação Ásia-Pacífico, a resposta da França é a resposta esperada, mas será a mais acertada, quando o EI tem estruturas que aguardam esta resposta? Se o objectivo é destruir o EI, a resposta é não. É necessário um ataque terrestre, vila a vila, aldeia a aldeia, desmantelando tudo, sem deixar viver a dúvida.
Por parte do EI, atacado o coração, aguardam-se novos ataques a órgãos fundamentais da Europa, sendo essencial não dormir na forma e estar preparado para as novas démarches de quem quer redesenhar o Médio Oriente.
Do lado político europeu avança-se para a 3ª Guerra Mundial. A França abre caminho, qual forcado da cara, mas os aliados enfileiram-se, todos a quererem agarrar o touro pelos cornos. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Arroz de pimenta

Não, não é uma receita, são apenas duas palavras usadas por Jorge Coimbra para substituir outras, meias asneirentas, no livro É assim não é, que acabo de ler. Jorge Coimbra é um gozão do caraças, e até devia dizer do ca**lho, porque o livro tem o sotaque do norte, com saca da escola e quarto de banho.
Escrevo e vejo a junção meias asneirentas e foge-me o pensamento para peúgas desbocadas, como se houvesse um PBX na minha cabeça que fez as ligações erradas. Bom, bate certo com o conteúdo do livro, cujo autor tem uma orquestra de... gente, sejamos generosos, a incliná-lo para certos pensamentos, certas musicalidades, certas coisas.
Visivelmente biográfico, o livro transporta-nos para tempos e terras longínquos, sempre com uma grande carga irónica e fazendo-nos frequentemente pensar que é connosco que fala, mera sobranceria nossa - ou não será? - e, num golpe rápido, estamos de volta ao hoje, esse hoje intemporal, e com o eventual pronome possessivo, nosso. O nosso hoje, o hoje de qualquer um de nós, que nos faz a soma de todos os dias que já vivemos, desde a altura em que nos limpavam o rabo até hoje, quando caminhamos para que nos limpem o rabo novamente. Isto se tivermos sorte.
Há toda uma viagem ao passado de há 60 anos, a ontem, ao momento presente, aos dias quentes do pós Abril de 74, ao trabalho invisível e nunca reconhecido da alfabetização - e que a mim me toca imenso, neta de um excepcional homem que aprendeu a ler e escrever em adulto - e essa viagem é feita pelos olhos do protagonista/autor que não se limita a espreitar lá para trás, mas antes segura a nossa mão e leva-nos, menino de escola, contando como foi, num caminho nunca cinzento, até porque muita da narrativa se passa em África, África que era branca e negra, mas nunca África mármore, porque as misturas tinham limites perfeitamente estabelecidos, e desses limites nos fala o livro, de um racismo que não existia pela simples razão que não era praticado por pretos e sim por brancos, logo, estava tudo bem...
Neste exercício de exorcismo com o passado, Jorge Coimbra partilha ocasionalmente a existência de um amor que o arrebatou, mais que a bengala que usa como se já fizesse parte dele, e que mantém. Quando fala da aluna, da jovem que se transformou em mulher, com quem casou, percebe-se um suavizar do toque das teclas que foram usadas para digitar as palavras, como se procurasse advérbios, cuja pronunciação estica o tempo, e faz durar mais o sentimento. Assim, não é com ternura, mas sim ternamente, que refere, sussurrando, os olhos, o cabelo ou a inteligência da mulher em causa. É uma ária de ópera que, a mim, me encanta por conseguir ser tão entoada, espraiando-se nos cinco sentidos.
Adoro provas de amor, adoro...
E se o conteúdo é um mega carrossel entre sítios tão díspares como os canais da cabeça do autor, Moçambique ou o Porto, que nos faz rir, reflectir, arrepender e viver, já o livro em si podia ter sido mais bem cuidado por parte da Chiado Editora.
Não percebo porque é que se continuam a cortar palavras quando temos a possibilidade técnica, ou tecnológica, ou como se queira, de construirmos linhas seguidas, sem tracinhos que dificultam e cortam a leitura, principalmente em casos como ca-
minhos-de-ferro.
Não podiam os caminhos ter seguido juntos? Tiveram que se cortar para multiplicar hífenes... vou deixar uma sugestão, e que tal caminhos tracinho de tracinho ferro? Ou ainda, português tracinho tracinho francês... sim, tracinho tracinho, porque estão lá dois: português--fran-
cês. Ou ainda um desajustado desajus-ta-
damente.
A revisora - na ficha técnica identificada como Margarida Maria - não devia confundir Ah com Ha, devia chapelizar os silêncios, não devia ter deixado passar um ? em lugar de um é,  devia ter visto que o lucro da Tourada é aos milhões, devia ter finalizado cada nota de rodapé com o respectivo sinal de ponto final, que devia ter poupado na contracapa que termina inexplicavelmente com um duplo ponto final, ou será com umas reticências mancas?
Por outro lado ainda, nada me impede de ir passear com uma camisa de dormir ou ir ao cinema de fato de mergulho. Nada me impede, mas vou ser alvo de olhares, risinhos e dedos apontados. Acontece o mesmo com a paginação que deixa artigos dependurados, palavras de uma só letra que ali se vê, sozinha, perdida e que nos faz perder a nós ainda mais quando aparece imediatamente a seguir a um ponto final...
Também inexplicavelmente o livro não se encontra à venda. Na Fnac informam que terá que ser encomendado ao editor, com um tempo de espera de uma a duas semanas, e com um preço de 14€, mais caro que na Wook, que com o desconto fica em 12,60€. Ora, uma a duas semanas é o tempo em que me chegam encomendas via Amazon, um pouco de todo o mundo, uma a duas semanas é tempo mais que suficiente para que eu pondere se afinal quero encomendar um livro ou uma estátua, uma a duas semanas é muito tempo, uma a duas semanas é desencorajante, principalmente num livro excelente para levar de férias. Os editores não deviam defender os seus autores...? Não me parece que neste caso isso aconteça.
E merecia, merecia mesmo muito.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Obscenidades

Há alturas no ano em que tenho três empregos, ou trabalhos, para quem acha que emprego é fazer os mínimos. Dou tudo por tudo e sinto-me verdadeiramente triste e frustrada por chegar a esta altura e verificar que tenho o suficiente para ir à praia mais próxima dia sim, dia não.
Fiz planos para ir ao Algarve uma semana, com despesas repartidas é claro mas, afinal, nem para isso dá.
Há gente que não me paga, há gente que nem põe a hipótese de me pagar e a culpa é inteiramente minha que não devia mexer um dedo para gastar um joule ou uma caloria em expectativas que não se concretizam. E eu sei que não se vão concretizar. Mas... quem sabe, talvez, ... e faço.
Sozinha e dentro de quatro paredes, sem um cêntimo para sair à rua, penso em Anne Frank: faz hoje anos que foi descoberta e presa.
PORRA! É obsceno que me queixe... mas que me custa, custa...
Custa-me trabalhar tanto e não ser compensada, custa-me não poder ter o mínimo que considero razoável, custa-me receber postais de vários locais onde não posso ir, custa-me ver tanta televisão, custa-me até ler, custa-me ver os meus planos mais básicos desfeitos, custa-me as pessoas afastarem-se de mim por não as poder acompanhar, custam-me certos silêncios, aparentemente incompreensíveis, aparentemente... mas depois lembro-me de uma 'amiga' que me disse que até era bom eu ter sempre roupa para passar a ferro, pois assim não me custava tanto a passar o tempo... e percebo que de facto deve haver muito (boa?) gente que se afasta porque talvez tenham receio que eu peça alguma coisa... Sim, eu adorava ir jantar fora - a última vez foi no Natal e porque me ofereceram - mas só posso ir se me ofereceres o jantar... Sim, eu adorava ir ao cinema, mas só posso ir se me convidares...
Será que têm receio que eu responda desta forma? Será que não me conhecem? Muitos serás se alinham numa fila, apenas com uma certeza... não sentem a minha falta, o que me deixa numa tristeza sem fim, porque não sei o que possa fazer mais por todos e por cada um que me rodeiam. Assim, concentro-me a pensar... Anne Frank, Anne Frank, Anne Frank, Anne Frank,...